21 de julho de 2014

[TEXTO] Enquanto Você se Esforça pra Ser um Sujeito Normal

Olá gente, hoje a postagem vai ser um pouco diferente do que é postado por aqui de costume, é um texto meu, e de algumas outras colegas (Juliana, Ana Carla, Bruna, Aline, Rita, Laila e Yslanna). O texto é de suspense e um pé no terror, espero que vocês gostem! Beijos, Maria Antônia!



   ENQUANTO VOCÊ SE ESFORÇA PARA SER UM SUJEITO NORMAL 

Ele tentava de todas as formas. Com a boca, com as mãos... e eu não era forte o suficiente para me defender. Com força, tentava abrir as minhas pernas e, impotente, não pude gritar, pois minha voz se esvaía e a minha consciência também...

(...)

     Por volta das onze da noite, era um dia frio de domingo, quando eu, nos braços de Rafael, tentava me livrar da forte maré de lembranças que me afligia desde a morte da minha mãe. A saudade dava-me um nó na garganta e marejava meus olhos. Sem hesitar, faço um pedido a Rafael: peço-lhe para ir ao Cemitério Santa Rosa, a fim de visitar ao túmulo da minha mãe.
    - Mas pra quê? Esqueça isso,Linda... Tente se afastar desse pesadelo.
    - Antes você fazia tudo que eu queria! Por que você está assim agora? Não gosta mais de mim?
     - Não, não diga isso... Porque, na verdade, eu só queria que você se afastasse dessas lembranças ruins.
     - Então eu vou sozinha mesmo! Já que você não quer a minha companhia e nem se esforça pra me agradar. TCHAU!
      Quando me dei conta, já perambulava pelas ruas escuras da Vila Santa Eugênia. Ouço ao fundo alguém chamando por Linda. Mas quem é Linda? A rua parece tão calma. Não consigo ver ninguém fugindo ou se movimentando pela rua. Começo a correr desesperadamente... Mas para onde vou? Meus pés parecem ter vida própria. Eles me guiam para um lugar que não sei qual. Onde vim parar? No cemitério? Sinto algo atrás de mim. Não ouso virar-me, mas temo. Prefiro me esconder aqui...
        Acordei e escolhi não abrir os olhos. Sinto que minhas costas doem. Há uma claridade querendo invadir os meus olhos, mas prefiro não abrir, essa luz parece tão incômoda. Sinto que não estou em casa... Mas o silêncio é tão grande que chega a ser caótico para mim. Abro os olhos e tenho uma primeira visão: uma cruz de metal com o nome Marta gravado e a data de três dias atrás. Levanto depressa e sinto-me abraçada. É um colo quente, que não me é estranho, e um perfume que sou habituada a sentir. É Rafael...
     - Por que a gente tá aqui? Por que eu dormi aqui? Por que você me deixou dormir? Eu não tenho absolutamente nada pra fazer nesse lugar horrível. Aposto que foi você que me trouxe aqui! Qual foi a sua intenção, afinal?
     - Não, meu amor, você não lembra que você quis de               qualquer jeito vir aqui para visitar o túmulo da sua mãe? Depois você não quis ir embora... só me restou ficar aqui ao seu lado.
      - Ah sim, claro que lembro! Minha cabeça está girando... quero ir pra casa! Você me leva?
      - Claro, é isso que estou tentando fazer desde ontem à noite.
     E vamos para casa. Ele me abraça. Enquanto caminhávamos, refleti o que aconteceu ontem à noite. Menti. Eu não me lembro do que aconteceu, tenho apenas pequenos fragmentos de lembranças, assim como há exatamente três dias atrás.
     Chegamos em casa e estou faminta. Resolvo preparar algo especial para nós, a nossa comida preferida: frango ao molho pardo. Retiro todo o sangue para fazer o molho, e logo após, me dirijo ao faqueiro. Seguro uma faca e vejo o meu reflexo... como me pareço incrivelmente com a minha mãe. Minha mãe... Apesar das mágoas, eu a amava tanto. Não consigo sequer me olhar no espelho e não lembrar da sua imagem tão semelhante a minha. Como será que ela foi embora? Nem tive a chance de me despedir... o caixão estava totalmente selado, sem me dar chances de tocá-la pela última vez.
       Resolvo falar com Rafael. O jantar pode esperar.
      -Amor, eu estava pensando... eu entendo pouquíssimas coisas, mas entendendo isso eu já ficaria satisfeita: como a minha mãe morreu? Por que eu não consigo me lembrar? Minha memória, como sempre, imprestável.
      - Imprestável? Sua memória está ótima. Isso é normal... nem eu lembro como aconteceu. Você tem que parar com isso de se colocar para baixo. O que você estava fazendo mesmo?
      - Não interessa, Rafael. Não mude de assunto! Eu quero entender isso de verdade!
     - Eu também quero, mas o que a gente pode fazer?
     - A gente pode investigar. Minha mãe não pode ter morrido assim, sem mais e nem menos, sem porquê. Seja quem for, vai ter que pagar por isso!
      Percebo uma mudança repentina em seu olhar, que desviou-se imediatamente do meu... uma gota de suor que desce das suas têmporas ao pescoço. Seu silêncio, que já prevalecia, chega a ser perturbador e enigmático.
      - Você, como sempre, curiosa... procurando agulha no palheiro! Você não vai chegar a nenhuma conclusão, por que levar adiante? É uma tolice!
       - Como você sabe? Não tenha tanta certeza.
     Último capítulo da novela. Nove da noite. Eu, mais preocupada em remover o esmalte das unhas, nunca me interessei nessas novelas que estão sempre pautadas num mesmo assunto, ao contrário de Rafael, que não desviava os olhos da TV. Minhas unhas estavam grandes e a cutícula parecia saltar delas. Digamos que não tenho tido muito tempo para cuidar de mim... a vida não tem sido nada generosa comigo. Ao término da última unha, percebo algo peculiar... aproximo-as de mim e me deparo com um forte pigmento vermelho embaixo delas. Mas o que seria isso? Eu não pintava as unhas de vermelho há tanto tempo... Aproximo a minha mão dos olhos, mas não obtenho nenhuma conclusão. Levo-as ao meu nariz, e tem cheiro de sangue.
     - Amor, tô com um cheiro de sangue aqui na mão... que coisa mais estranha!
     - Claro... você tratou o frango à tarde, lembra? Que a próposito, estava delicioso.
     - Frango? Que frango? Eu não como frango há tanto tempo! Nem comi hoje! Você tá ficando louco?
     - Lembra não? Aquele frango ao molho pardo do jantar.
     - Ah, foi mesmo! É que... você sabe. Minha mente está tumultuada por esses dias.
     - Que nada, acontece... Vou logo escovar os dentes e te espero no quarto.
      Não. Não lembro de ter terminado de preparar o frango. Eu não gosto de mentir pra ele... mas sabe, eu prefiro que seja assim, pelo menos, ele não tem motivos pra dizer que estou louca. Porque eu realmente não estou.
       Acho melhor ir dormir... com tanta coisa rondando na cabeça, capaz até de isso se concretizar. Vou escovar os dentes. Dirijo-me ao banheiro e me olho no espelho. Enxergo alguém nele que é incrivelmente parecido comigo: minha mãe. Mas ela parece tão aflita... e então, percebo lágrimas descendo em seu rosto, num misto de tristeza e raiva, como se quisesse me dizer algo. Minhas mãos trêmulas se dirigem à escova de dentes, enquanto lágrimas rolam no meu rosto, o que me faz lembrar novamente daquela imagem no espelho. A escova cai embaixo da banheira. Parece que as minhas forças todas se esvaíram., e até as as minhas pernas negligenciam em sua função de me manter em pé. Caída no chão, avisto a escova, levo a minha mão até ela e a puxo até mim... quando percebo uma vermelhidão em suas cerdas. A coragem, repentinamente, me domina, e sinto-me tentada a puxar a banheira enquanto grito por Rafael. De onde vinha aquele sangue? E por que estava ali?
- O que está acontecendo, Linda? Que barulho é esse? Por que você está puxando a banheira?
- Me ajuda a arrastar agora. Tem sangue embaixo dela.
- Sangue? Como assim?
- Já disse pra você me ajudar! Vem logo.
    Ele me ajuda a arrastar a banheira e, finalmente, vejo o que há embaixo dela.
    - Tá vendo que é sangue? - e então, eu cheiro aquela mancha e tenho a certeza.
    Rafael me segura pelos braços agressivamente, de uma forma que eu nunca havia visto antes.
    - Eu já te disse pra você esquecer essa história de investigação Já tô cansado disso. Só fala dessa morte o tempo todo. Você tem que entender de uma vez por todas que ela foi embora e não vai voltar nunca mais!
    - Me deixe em paz!
       Saio do banheiro furiosa e atravesso os corredores da casa. Vou ao meu quarto, pego um travesseiro, um cobertor e decido dormir na sala. Não quero vê-lo mais hoje. Preciso de um momento só meu, sem que ninguém me atire pedras por pensar em algo que eu tenho direito de saber como aconteceu.
       Deito-me no sofá e a minha mente é tomada por um turbilhão de memórias aleatórias, que nunca se ligam umas às outras. Navego dentro de mim mesma ao perder-me observando o relógio e o pêndulo na parede. Meus olhos acompanham aquele movimento da esquerda pra direita, e da direita pra esquerda... meu cérebro trabalha ativamente, assim como o pêndulo. Recordo-me de ter algo ali, não sei o que e nem de quem, só sei que é algo extremamente importante. Vou até lá, abro a pequena porta de vidro, e bem no fundo, avisto um diário, e tenho a constatação de que é ele é realmente importante. Pego-o e sento-me no sofá, observando os seus detalhes, em busca de algum nome que pudesse me esclarecer a sua origem... mas não encontro.

        Querido diário,                                                                                                               11/02/2005
     
     Estou escrevendo isso para que eu nunca esqueça. Não sei porque eu gostaria de lembrar de algo tão terrível assim, só sei que, por algum motivo, é preciso deixar registrado. Algum dia isso há de ser importante.
   Todo o meu corpo dói muito. Meu coração bate forte como no exato momento em que tudo aconteceu, mas, ao contrário do momento, ele bate forte com alívio por tudo ter passado. As marcas roxas em meu corpo, o cheiro masculino dele e os arranhões da barba que ele sempre deixa por fazer ficaram em mim, e não me deixam pensar em qualquer outra coisa. Logo ele... aquele que me levava para a escola, me trazia os melhores presentes e me empurrava no balanço...
   As lágrimas caem o tempo todo e sem parar. Elas não desistem de mim. Mas sabe qual é a pior parte disso tudo? Ela não fez nada. Nunca faz nada... e nunca esteve ali.
   
 Acordo com a voz de Rafael e, quando abro os olhos, me deparo com o diário que estive em minhas mãos na noite passada, agora em suas mãos.
   - Linda, de quem é esse diário? Onde você o achou?
    - Estava ali próximo ao pêndulo... mas não faço a mínima ideia de quem seja. Nem sei como veio parar aqui em casa. A única possibilidade que me vem à cabeça é que pode ser do antigo morador ou... da minha mãe. Mas eu não lembro de comentários dela acerca disso. Acho que essa possibilidade é nula.
    - Sabe o que eu estava pensando? Por que a gente não faz um piquenique no quintal? Próximo à árvore, que é bem arejado... o que acha?
   - Acho uma ótima ideia, amor. Estou realmente precisando de um momento assim... Preciso espairecer e me acalmar. Vamos hoje mesmo.
     Peguei as frutas e coloquei na cesta, assim como os pães, queijo, presunto, manteiga e as jarras de suco. Olho em volta, na cozinha, para ver se não esqueci algo. Pelo visto, não.
   - Linda, já pegou tudo? Vamos logo!
    - Ah... Esqueci a faca de cortar o pão. Já vou.
     Saímos em direção ao gramado. Sentamos e abri a cesta. Estou faminta. Olho em volta e percebo como o sol brilha forte, e até ofusca a minha visão... Tento me lembrar da última vez em que fiz um piquenique no jardim. E quando lembro, vejo aquele balanço. O balanço em que brinquei tanto na infância, no qual passei tantos momentos alegres junto com ele. Ele, que me proporcionou os momentos mais marcantes da minha infância... Assim como dizia o diário... Ao desviar meus olhos para baixo, vejo que a grama falta em um trecho do jardim. Parece até um buraco que foi cavado às pressas, com total descuido. Logo atrás dele, percebo uma pá, que supostamente foi usada para cavá-lo. Mas por que aquele buraco estava ali? Por quem? Momentaneamente, esqueço-me do piquenique, do sol, da fome e de Rafael. Busco aquela pá e cavo aquele buraco enigmático, em busca de algo que nem sei o que é.       
      - Ei, o que você está fazendo aí?
      - Tá cego? Não tá vendo que tô cavando a merda do buraco? Se for pra atrapalhar, nem faça nada. Você sabe o que eu quero entender - ergo a minha pá em direção a ele e ameaço-o.
     - Você vai me bater? É isso mesmo? Eu não aguento mais ter que ficar te encobrindo o tempo todo. Você quer descobrir a verdade? Quer mesmo? Nem precisa cavar o buraco. Deixa que eu te conto. Você, com essa sua doença de cabeça, que não deixa você se lembrar das besteiras que faz, só vive me tratando mal. Eu sempre tentei te proteger o tempo todo. Tentei te fazer melhor do que você realmente é, tentei fazer com que você não se achasse a pior pessoa do mundo... Mas eu cansei disso. Quer saber quem matou sua mãe? Foi você! Na banheira! Eu nem estava na sua casa... Quando cheguei, você estava velando a sua mãe. Eu só tive que limpar a sujeira toda e tentar fazer com que você esquecesse tudo, porque você sabe o quanto eu sempre quis que você se sentisse bem. E o que você me dá em troca?... Ah, e quer saber quem escreveu aquele diário? Você! Seu pai te estuprava e sua mãe não fazia nada, mas como você é doente, não consegue lembrar as coisas. E aquele sangue nas suas unhas? Era o sangue da sua mãe! Eu tentei tanto, mas tanto, fazer com que você esquecesse essa história... Mas você queria saber o que aconteceu de qualquer jeito. Foi você! Você, sua assassina!
     Corremos em direção à cesta dos talheres, e então, a lâmina desceu em alguma direção.

 
     

17 comentários:

  1. gente muito legal a leitura
    super envolvente,mais me conta como e esse projeto? como se juntam?
    entao achei a leitura mais para suspense,a maneira que foi colocada ficou sutil e bacana de ler...
    arrasarm,escrevem mais
    mil bjs
    www.zilandramakes.com.br

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    Respostas
    1. Obrigada, querida!
      O "projeto" foi colocado pelo colégio, a proposta era fazer um texto narrativo, sem limite de tamanho e com tema qualquer, nós nos reunimos e as nossas ideias deram nisso ai.
      Ficamos muito feliz que você gostou e pode ser que no futuro não muito distante a gente escreva mais alguma coisa!

      Beijos!

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  2. me lembrou a música do Raul Seixas,maluco beleza
    www.portaldebeleza.com

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  3. Adorei o texto, curto suspenses, me fazem querer ler mais e mais...
    Quero ler mais textos seus!
    Beijos

    Little Bit of Glamour

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  4. ai que tenso ....o texto foi super elaborado,da vontade de ler e ler e não mais parar ...nossa to aqui pasmada...adorei parabéns mesmo

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  5. Muito envolvente, prende a atenção, comece a ler e não queria parar, um suspense é tudo de bom.
    Parabéns, ótimo texto!
    Bjús, Cih
    http://quadrofeminino.com/

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  6. Ai que máximo! Eu fiz uma história com as minhas bffs na 4ª série e a tenho guardada até hj :) Parabéns pela iniciativa de vcs :) O texto está bem escrito :) bjs

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  7. Não é um estilo que eu goste... Não sou muito chegada a suspense, a terror muito menos, então não sou público-alvo desse texto! rs...

    Beijo!

    Ju
    Entre Palcos e Livros

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  8. Uauuuuuuuuuuu! Caramba, me prendeu do início ao fim, e esse final, não poderia ser melhor. Parabéns pelo conto! Pelo menos e considero um conto..rs

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  9. Minha nossa! Quanta tensão! Realmente envolvente e eu questionei minhas desconfianças algumas vezes. Muito bem desenvolvida a narrativa!

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  10. LE MUITO LEGAL, BOM FIQUEI COM UMAS DUVIDAS,RS MAS PARABÉNS, NO FINAL TUDO ESCLARECEU, ABRAÇOS...^^

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  11. Mto legal o texto.Adorei! Parabens!!!
    Beijos
    www.salada-frutas.com.br

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  12. Nossa amiga, fiquei arrepiada, tensão a flor da pele em?
    Já pensou em escrever um livro, olha que daria certo em?
    bjs

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  13. Gostei bastante do texto, achei super bem feito, mas eu não gosto muito desse gênero, sabe? No entanto, acho que você e suas amigas possuem um grande futuro como escritoras, pois o texto ficou ótimo e prende a atenção fácil *o*

    Beijos :*
    Larissa - Srta. Bookaholic

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  14. A-D-O-R-E-I o texto, me prendeu do começo ao fim. Você pode ser escritora hein.

    eueminhapequenaestante.blogspot.com

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  15. Oi Maria, tudo bem?
    Se me permitem, acho que podem desenvolver um pouco mais o personagem masculino. Da forma como foi escrito, não convence muito o motivo pelo qual ele encobriu o crime dela.
    beijinhos.
    http://cantinhoparaleitura.blogspot.com.br/

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  16. Oi Flor!
    Adoro um suspense! Gostei muito do texto, bem envolvente e me deixou curiosa!
    Beijos
    Paulinha Juliana - Overdose Literária!
    http://overdoselite.blogspot.com.br/

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